Evangelho e Trabalho

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17
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(O Livro dos Espíritos — 674-681)

A glorificação do trabalho é serviço evangélico.

Antecedendo a influência do Mestre, a Terra era vasto latifúndio povoado de senhores e escravos. O serviço era considerado desonra.

Dominadas pelo princípio da força, as nações guardavam imensa semelhança com as tabas da comunidade primigênia. O destaque social resultava da caça.

Erguiam-se os tronos, quase sempre, sobre escuros alicerces de rapinagem.

Os favores da vida pertenciam aos mais argutos e aos mais poderosos.

Qualquer infelicidade econômica redundava em compulsório cativeiro. Trabalho era sinônimo de aviltação.

Os Espíritos mais nobres, na maioria das vezes, demoravam-se na subalternidade absoluta, suando e gemendo para sustentar o carro purpúreo dos opressores.

Em todas as cidades, pululavam escravos de todos os matizes e somente a eles era conferido o dever de servir, como austera punição.

Roma imperial jazia repleta de cativos tomados ao Egito e à Grécia, à Gália e ao Ponto. Só na revolução de Espártaco, no ano de 71, antes da era cristã, foram condenados à morte trinta mil escravos na Via Ápia, cuja única falta era aspirar ao trabalho digno em liberdade edificante.

Com Jesus, no entanto, nova época surge para o mundo. O ministério do Senhor é, sobretudo, de ação e movimento.

Levanta-se o Mestre com o dia e devota-se ao bem dos semelhantes pela noite a dentro.

Médico — não descansa no auxílio efetivo aos doentes.

Professor — não se fatiga, repetindo as lições.

Juiz — exemplifica a imparcialidade e a tolerância.

Benfeitor — espalha, sem cessar, as bênçãos do amor infinito.

Sábio — coloca a ciência do bem ao alcance de todos.

Advogado — defende os interesses dos fracos e dos humildes.

Trabalhador divino — serve a todos, sem reclamação e sem recompensa.

O exemplo do Cristo é sublime e contagiante.

Cada companheiro de apostolado ausenta-se, mais tarde, do comodismo para ajudar e ensinar em seu nome, rasgando horizontes mais vastos à compreensão da vida, em regiões distantes do berço que os vira nascer.

Mais tarde, em Roma, o desejo de auxílio mútuo entre os cristãos atinge inconcebíveis realizações no capítulo do trabalho.

Pessoas convertidas ao Evangelho se consagram, inteiramente, ao serviço com o objetivo de amparar os companheiros necessitados.

Espalham-se aprendizes da Boa Nova nas atividades da indústria e da agricultura, das artes e das ciências, da instrução e do comércio, da enfermagem e da limpeza pública, disputando recursos para o auxílio aos associados de ideal, na servidão ou na indigência, no sofrimento e nas prisões. Há quem jejue por dois e três dias seguidos, a fim de economizar dinheiro para os serviços de assistência ao próximo, sob a direção do pastor.

O trabalho passa, então, a ser interpretado por bênção divina.

Paulo de Tarso, transferindo-se da dignidade do Sinédrio para o duro labor do tear, confeccionando tapetes para não ser pesado a ninguém e garantindo, por esse modo, a sua liberdade de palavra e de ação, é o símbolo do cristão que educa e realiza, demonstrando que à claridade do ensino deve aliar-se a glória do exemplo.

E, até hoje, honrando no trabalho digno a sua norma fundamental de ação, o Cristianismo é a força libertadora da Humanidade, nos quadrantes do mundo inteiro.